Países do Oriente Médio, a ONU e os palestinos rejeitaram de maneira categórica nesta quarta-feira (5) a ideia do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de “assumir o controle” da Faixa de Gaza e transferir seus habitantes. Trump anunciou a proposta na terça-feira, durante uma entrevista coletiva em Washington ao lado do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, que foi recebido na Casa Branca.
Sem anunciar datas ou detalhes de como seria o controle do território ou a transferência de seus mais de dois milhões de habitantes, Trump afirmou que eliminará as bombas não detonadas e os escombros para transformar Gaza em um lugar “incrível”.”Os Estados Unidos assumirão o controle da Faixa de Gaza e também faremos um bom trabalho” nela, declarou o presidente americano, que afirmou ter o apoio do Oriente Médio, embora tanto o Egito quanto a Jordânia tenham rejeitado a ideia.
Trump sugeriu uma “propriedade a longo prazo” dos Estados Unidos e disse que transformará o território na “Riviera do Oriente Médio”. A ideia parece impossível de ser concretizada, pois enfrenta vários obstáculos: o apego dos palestinos à sua terra, a oposição dos países árabes e as regras do direito internacional. Apesar das críticas, Trump insistiu nesta quarta-feira que “todos adoram” sua proposta.
Karoline Leavitt, porta-voz da Casa Branca, afirmou que Trump “não se comprometeu” por enquanto a enviar tropas para Gaza como parte de seu plano. O secretário de Estado, Marco Rubio, assegurou que Trump quer que os palestinos saiam “temporariamente” da Faixa de Gaza para reconstruí-la, sendo uma proposta “generosa” e não “hostil”.- “Enterrar” a ideia de um Estado palestino -O Hamas, que governa o território desde 2007, rejeitou a proposta, e seu porta-voz Abdel Latif al Qanu a chamou de “racista” e “alinhada com a da extrema direita israelense”.
O grupo palestino também afirmou que o plano é “agressivo” e “não servirá para a estabilidade na região e apenas jogará mais lenha na fogueira”. O presidente da Autoridade Palestina, Mahmud Abbas, que desembarcou nesta quarta-feira na Jordânia para uma reunião com o rei Abdullah II, também rejeitou “vigorosamente” a proposta.”Não permitiremos que os direitos do nosso povo sejam violados”, declarou Abbas, que lidera um executivo com poder limitado na Cisjordânia.
Já Netanyahu disse que a proposta de Trump poderia “mudar a história” e que vale a pena “prestar atenção”. O governante israelense conta, entre seus aliados, com forças políticas que sonham em reinstaurar colônias judaicas na Faixa de Gaza, de onde Israel se retirou unilateralmente em 2005 por decisão do então primeiro-ministro Ariel Sharon. O ministro das Finanças de Israel, Bezalel Smotrich, do Partido Sionista Religioso (extrema direita), prometeu nesta quarta fazer de tudo para “enterrar definitivamente” a ideia de um Estado palestino.
Após uma guerra de 15 meses desencadeada pelo ataque de Hamas em outubro de 2023 em território israelense, grande parte da Faixa de Gaza está devastada. Um cessar-fogo, que entrou em vigor no mês passado, permitiu a troca de reféns israelenses por prisioneiros palestinos.- “Viver ou morrer aqui” -Para os palestinos, qualquer tentativa de obrigá-los a sair de Gaza evoca o trauma da Nakba (“catástrofe” em árabe), o deslocamento em massa e a expulsão de centenas de milhares de palestinos de suas casas durante a criação do Estado de Israel em 1948.”Sou de Gaza, meu pai e meu avó são daqui […] Só temos uma opção: morrer ou viver aqui”, afirmou Ahmed Halasa, de 41 anos.
O porta-voz de António Guterres, secretário-geral da ONU, se pronunciou contra qualquer tentativa de “limpeza étnica” em Gaza. O rei da Jordânia reiterou nesta quarta-feira sua oposição a “qualquer tentativa” de deslocamento da população palestina. Egito e Catar – países mediadores da trégua em Gaza – também se mostraram contrários. A Liga Árabe afirmou que a proposta é uma “receita para a instabilidade” e a Turquia dee contra a ideia.
A China também criticou a possível “transferência forçada” da população e o Brasil classificou a proposta como “incompreensível”.”E os palestinos vão para onde? Onde eles vão viver? […] Quem tem que cuidar de Gaza são os palestinos, porque eles precisam ter uma reparação de tudo aquilo que foi destruído”, disse o presidente Lula nesta quarta. Países como França, Espanha e Alemanha também expressaram sua oposição, e a União Europeia afirmou que Gaza é uma “parte integral” de um futuro Estado palestino.
A guerra teve início com o ataque do Hamas contra Israel em 7 de outubro de 2023, que deixou 1.210 mortos, a maioria civis, segundo uma contagem da AFP baseada em dados oficiais israelenses. A resposta em retaliação de Israel deixou pelo menos 47.518 mortos em Gaza, majoritariamente civis, segundo o Ministério da Saúde do território governado pelo Hamas.burs-ser/kir/pc/avl/fp/aa/yr/ic/jb/am
Wed, 05 Feb 2025 19:52:54 GMT
