Itália suspende livre circulação com Espanha após onda migratória em Ceuta

A chegada de cerca de 60 mil migrantes vindos do Marrocos ao enclave espanhol de Ceuta, que Madri classificou como um “ataque” à sua integridade territorial, provocou nesta sexta-feira (31) uma crise na União Europeia, a ponto de a Itália fechar temporariamente seu espaço de livre circulação para a Espanha. Pelo menos 34 pessoas morreram na tentativa de chegar ao enclave, segundo o governo local.

Desde o início da semana, centenas de pessoas começaram a chegar a Ceuta, tanto a nado quanto saltando as cercas da fronteira, em sua maioria homens jovens e adolescentes. Mas, a partir da madrugada de quinta-feira, a onda de migrantes aumentou drasticamente, chegando a cerca de 60 mil pessoas. Segundo o governo espanhol, até o fim da sexta-feira a maioria delas (cerca de 48 mil) já havia retornado ao Marrocos, embora a tensão persista.

Durante a noite de sexta para sábado, grupos de jovens circulavam pelas ruas e ao longo da praia de Ceuta, onde há um forte esquema de segurança com militares, especialmente nas proximidades do porto, de onde partem as balsas para o continente europeu. Jornalistas da AFP observaram um grande número de policiais patrulhando as ruas. Alguns, em motocicletas, perseguiam grupos para dispersá-los.

No posto de fronteira, por volta da meia-noite, muitos jovens desistiram de atravessar ao se depararem com o forte aparato das forças de segurança.”Da próxima vez venho com passaporte!”, gritou Oussam aos militares. O jovem de 25 anos, dono de uma barbearia, disse que quis deixar seu país porque “no Marrocos há miséria, não temos futuro”. Trata-se de uma das piores crises enfrentadas nos últimos anos por essa cidade autônoma espanhola de 84 mil habitantes.

Vários países europeus reagiram com firmeza à crise migratória, começando pela Itália, que anunciou a “suspensão temporária” do acordo de livre circulação (Tratado de Schengen) com a Espanha, com o apoio da Finlândia e da Dinamarca.”É uma decisão necessária para proteger a segurança de nossos cidadãos e defender as fronteiras da Europa”, escreveu no X o ministro das Relações Exteriores da Itália, Antonio Tajani.

Procurado pela AFP, o Ministério do Interior italiano confirmou que fechou para a Espanha seus pontos de entrada marítimos e aéreos, mas esclareceu que isso não terá impacto sobre as viagens de espanhóis e demais cidadãos europeus. A medida permanecerá em vigor por um mês, a partir deste sábado. – “Não é hora de dividir” – O ministro das Relações Exteriores da Espanha, José Manuel Albares, respondeu no X que a integridade do espaço Schengen “está absolutamente garantida”, porque a maioria dos migrantes já retornou ao Marrocos.

Ainda não está claro qual será o alcance da suspensão. Juristas consultados pela AFP afirmaram que ela não pode ser aplicada dentro do atual marco jurídico. Em Washington, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, classificou as imagens como “terríveis”.”É assim que estaremos daqui a três anos se o lado errado vencer”, declarou o republicano à Fox News, antes das eleições legislativas de meio de mandato de novembro, em referência à oposição democrata.

O presidente francês, Emmanuel Macron, manifestou sua “solidariedade” à Espanha, enquanto o governo francês anunciou que multiplicará por cinco o número de policiais na fronteira com a Espanha.”Não é hora de dividir, é hora de continuar construindo uma União Europeia forte e unida”, respondeu o presidente do governo espanhol, Pedro Sánchez, às críticas, em mensagem publicada no X, na qual lembrou que há outros pontos da União Europeia por onde migrantes entram de forma irregular.

Ao chegar a Ceuta nesta sexta-feira, Sánchez classificou o episódio como um “ataque à integridade territorial” e acusou as “máfias de traficantes” de serem as responsáveis. Juan Jesús Vivas, presidente da cidade autônoma, lamentou, em pronunciamento, uma resposta “tardia e insuficiente” do governo de Madri e afirmou que “absorver essa pressão é absolutamente impossível”. – “Ceuta unida jamais será vencida” – Nas ruas de Ceuta, território de 18,5 km², os comércios permaneciam fechados, e a confederação local de empresários recomendou que continuassem assim “até que a segurança seja garantida”.

Nesta sexta-feira, centenas de moradores de Ceuta protestaram em frente à prefeitura, gritando: “Ceuta unida jamais será vencida!”. Ao anoitecer, dezenas de homens dormiam sobre a areia de uma praia, e alguns acenderam fogueiras a poucos metros de um veículo policial. Em frente ao centro de acolhimento para migrantes de Ceuta, dezenas de pessoas dormiam no chão, e o ambiente rapidamente se tornava tenso entre diferentes grupos, que eram imediatamente dispersados pelos policiais que vigiavam o local.”Eles vêm porque não têm futuro no Marrocos, tentam alcançar o sonho europeu”, afirmou Mohamed, um taxista de 35 anos que preferiu não revelar seu sobrenome.

Em Madri, também foi realizado um protesto contra a imigração em frente à embaixada do Marrocos. Vestidos de preto, os manifestantes gritavam: “Espanha cristã, não muçulmana!” e “Unidade nacional!”. 

Sat, 01 Aug 2026 00:44:32 GMT