Algumas ferramentas de segurança da Meta foram “projetadas para falhar”, diz ex-funcionário em julgamento
Um ex-funcionário da Meta, em depoimento nesta quarta-feira (19), contou que algumas ferramentas de segurança do Facebook e do Instagram foram “projetadas para falhar”, contradizendo a defesa da empresa no segundo dia do julgamento sobre o suposto vício de menores nas redes sociais nos Estados Unidos. O ex-diretor de engenharia da Meta, Arturo Bejar, é a primeira testemunha a depor no processo, que deve durar cerca de seis semanas.
A empresa responde a acusações apresentadas por uma coalizão de estados americanos, que a acusam de projetar deliberadamente seus produtos para tornar crianças e adolescentes dependentes e coletar seus dados, enquanto ocultava a realidade do público. Uma derrota no julgamento poderia resultar em uma multa de US$ 200 bilhões (R$ 1,04 trilhão) para a gigante das redes sociais, obrigá-la a promover mudanças profundas em seu modelo de negócios e provocar um forte impacto em todo o setor.
A Meta não nega que alguns usuários, incluindo adolescentes, tenham experiências negativas com seus dois principais aplicativos. No entanto, alega que criou recursos para reduzir os riscos.”Não há dúvida de que a Meta reconheceu que as pessoas podem enfrentar dificuldades com o uso das redes sociais e tentou desenvolver ferramentas para ajudá-las”, declarou na terça-feira o advogado da companhia, Paul Schmidt, durante as alegações iniciais do julgamento.
Contudo, a Meta tornou algumas dessas ferramentas opcionais. Isso significa que os usuários precisam ativá-las por conta própria, incluindo um recurso lançado em 2021 chamado “Faça uma pausa”, que permite configurar lembretes para interromper o uso do Instagram periodicamente.”Na minha experiência, o ‘Faça uma pausa’ é uma funcionalidade projetada para falhar”, afirmou Arturo Bejar durante o segundo dia de audiências.
Bejar argumenta que a empresa priorizou os lucros em detrimento da segurança ao incentivar os usuários a passarem cada vez mais tempo no Facebook e no Instagram. Segundo ele, essa estratégia levou a decisões como tornar opcionais recursos de segurança, incluindo ferramentas destinadas a combater a rolagem infinita ou limitar notificações que estimulam o engajamento.“As notificações são criadas e projetadas para fazer as pessoas voltarem, de modo que passem mais tempo na plataforma e gerem mais receita.
Elas não são projetadas para a saúde mental nem para a segurança das pessoas”, acrescentou Bejar nesta quarta. Dias antes do julgamento, a Meta tentou impedir o depoimento do ex-diretor de engenharia, mas o pedido foi rejeitado pelo juiz. – O caso das empresas de cigarros – Especialistas veem neste julgamento paralelos com um acordo firmado há quase três décadas entre dezenas de estados dos Estados Unidos e empresas do setor tabagista.
As autoridades processaram quatro grandes fabricantes de cigarros por minimizar os efeitos nocivos de seus produtos para a saúde e obtiveram um acordo histórico em 1998, que incluiu sanções financeiras e mudanças na forma de comercialização dos produtos. De maneira semelhante, dezenas de estados voltam a agir em uma área em que “o Congresso não atuou”, afirmou na terça o procurador-geral do Colorado, Phil Weiser.
Os casos do tabaco e das redes sociais envolvem “saúde pública e, em alguns casos, marketing voltado para menores que prejudica as crianças e adolescentes”, acrescentou Weiser. Nas alegações iniciais apresentadas na terça-feira, a procuradora-geral adjunta da Califórnia, Megan O’Neill, descreveu o modelo de negócios da Meta como uma estratégia para “atrair usuários, mantê-los pelo maior tempo possível, coletar seus dados e depois esconder a verdade do público”.
O fundador e CEO da empresa, Mark Zuckerberg, e o diretor do Instagram, Adam Mosseri, estão entre as principais testemunhas que poderão depor, segundo documentos judiciais. Durante uma coletiva de imprensa na terça-feira, porém, o procurador-geral da Califórnia, Rob Bonta, recusou-se a confirmar se Zuckerberg será chamado para testemunhar. Antes do início do julgamento, a Meta rejeitou as acusações e insistiu que trabalhou com pais, especialistas e autoridades para incorporar mecanismos de proteção a menores de idade.
Wed, 19 Aug 2026 22:08:20 GMT
