Novos protestos no Irã são marcados por disparos e gás lacrimogêneo

Forças de segurança iranianas dispararam balas e gás lacrimogêneo durante protestos nesta quarta-feira (12) pela morte de Mahsa Amini. Desencadeado há quase um mês, ONGs estimam que a repressão ao movimento já fez ao menos 108 vítimas fatais, muitas deles menores de idade.

Os gritos dos manifestantes foram interrompidos por tiros nas cidades de Isfahan e Karaj, assim como na cidade natal de Amini, Saqez, segundo vídeos divulgados por duas organizações de direitos humanos sediadas na Noruega.

Disparos foram ouvidos em Isfahan em meio a “protestos e greves em todo o país”, disse o Iran Human Rights (IHR) em um vídeo postado no Twitter.

O mesmo aconteceu em Saqez, segundo o grupo de direitos curdos Hengaw, que informou que “as forças de segurança fugiram” logo depois.

Em Teerã, as forças de segurança dispararam gás lacrimogêneo para dispersar uma manifestação de advogados que entoavam “Mulher, vida, liberdade”, de acordo com imagens divulgadas pelo IHR. Pelo menos três advogados foram presos, segundo informações do jornal reformador Shargh.

De acordo com o IHR, com sede em Oslo, pelo menos 108 pessoas foram mortas no Irã na repressão aos protestos.

A onda de protestos foi desencadeada pela morte, em 16 de setembro, de Mahsa Amini, uma curda iraniana de 22 anos que faleceu três dias depois de ser presa pela polícia da moral em Teerã por supostamente violar o rígido código de vestimenta da República Islâmica.

O movimento, o maior no Irã desde 2019 contra o aumento do preço da gasolina, levou jovens, estudantes universitárias e escolares a tirarem seus véus e enfrentarem as forças de segurança nas ruas.

Pelo menos 28 crianças morreram nos protestos e centenas foram detidas, a maioria em prisões para adultos, denunciam grupos de direitos humanos dentro e fora do país.

Esses distúrbios agitaram particularmente Sanandaj, capital da província do Curdistão, no oeste do Irã, onde nasceu Mahsa Amini.

Mas também atingiram Zahedan, no sudeste do Irã, onde os protestos começaram em 30 de setembro.

Nesse caso, a violência foi desencadeada durante manifestações de protesto contra o suposto estupro de uma jovem por um policial.

Em uma aparição na televisão na quarta-feira, o líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, acusou os “inimigos” do Irã de “alimentar esses distúrbios de rua”. Em 3 de outubro,  já acusava Estados Unidos e Israel, inimigos de Teerã, de fomentarem os protestos.

– Uma “iminente repressão sangrenta” –

Nesta quarta-feira, ativistas convocaram novas mobilizações “em solidariedade ao povo de Sanandaj e ao povo heróico de Zahedan”.

A IHR denunciou que suas investigações sobre o alcance da “repressão” na área do Curdistão foram prejudicadas por cortes na Internet e alertou para uma “iminente repressão sangrenta” nesta província. 

Analistas afirmam que a natureza desses protestos complicou as tentativas do estado de reprimi-los, o que pode se tornar um desafio maior para as autoridades em relação ao movimento de 2019.

Diante dessa situação, o Irã bloqueou o acesso às redes sociais, incluindo Instagram e WhatsApp, e lançou uma campanha de detenções em massa.

Antes dos protestos de hoje, programados para começar ao meio-dia, o site NetBlocks, que monitora bloqueios de internet em todo o mundo, notou pela manhã “uma grande interrupção no tráfego de internet no Irã”. 

O Irã acusa potências estrangeiras de intervir no movimento, que se refere como “distúrbios”, já que vários comícios de solidariedade foram organizados no exterior.

Depois dos Estados Unidos, Canadá e outros países ocidentais, os membros da União Europeia concordaram em impor sanções.

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, disse que é “o momento de sancionar os responsáveis” no Irã “pela repressão às mulheres”.

O presidente francês, Emmanuel Macron, expressou sua “admiração” pelas “mulheres” e “jovens” que participam dos protestos e reivindicam o “universalismo” de valores.

“Estamos com aqueles que lutam por esses valores”, disse Macron em entrevista à emissora France 2.

As autoridades iranianas afirmam que a jovem morreu de doença e não de “espancamento”, segundo um relatório médico, rejeitado por seu pai.