O navio humanitário “Ocean Viking” desembarcou 230 migrantes no porto militar francês de Toulon nesta sexta-feira (11), após uma viagem difícil que desencadeou uma crise entre França e Itália.
Este é o primeiro desembarque na França de um navio de resgate de migrantes no Mediterrâneo, após um confronto diplomático com a Itália, que se recusou a abrir seus portos.
Nesse contexto, o ministro francês do Interior, Gérard Darmanin, criticou “uma Itália muito desumana”.
A primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, de extrema direita, descreveu a reação da França como “agressiva”, “injustificada” e “incompreensível” e disse que quer encontrar “uma solução europeia” para a questão da migração.
Meloni lembrou que seu país recebeu cerca de 90.000 migrantes este ano e que os países europeus que prometeram ajudar a Itália e acolher 8.000 pessoas receberam apenas algumas dezenas.
Depois de três semanas no mar em uma busca sem sucesso por um porto seguro, o “Ocean Viking”, que resgatou os migrantes na costa da Líbia, atracou na França por volta das 8h50 hora local (4h50 no horário de Brasília).
“Há muita emoção a bordo.
Todos estão muito, muito cansados, mas aliviados por chegar à terra. É o fim de uma provação”, disse à AFP Laurence Bondard, da ONG SOS Méditerranée, que opera o navio.
Inicialmente, o “Ocean Viking” procurou atracar na costa italiana, a mais próxima do local onde os migrantes, entre eles homens, mulheres e 57 crianças, foram resgatados.
– Onze países solidários –
Os migrantes começaram a ser transferidos de ônibus para um centro de férias na península de Giens, em Hyères, declarado “área internacional de espera” por cerca de 20 dias.
Os resgatados “não poderão deixar o centro administrativo e, portanto, tecnicamente, não estarão em território francês”, segundo o ministro Darmanin.
Eles serão submetidos a verificações sanitária e de segurança, antes de serem interrogados pela administração que determina se um migrante recebe o “status” de refugiado.
Outros 11 países da União Europeia (UE) vão receber dois terços dos migrantes, anunciou Darmanin na quinta-feira, acrescentando que o terço restante ficará na França.
A Alemanha acolherá “mais de 80”, enquanto Croácia, Romênia, Bulgária, Lituânia, Malta, Portugal, Luxemburgo e Irlanda também contribuirão, em nome da “solidariedade europeia”, detalhou.
– Polêmica política –
Pessoas próximas ao ministro Darmanin especificaram que “aqueles que não obtiverem asilo serão transferidos diretamente da sala de espera para seu país de origem”.
O caso ocorre em plena apresentação de um projeto de lei sobre imigração na França, que pretende acelerar a expulsão daqueles que foram rejeitados.
A presidente do principal partido de extrema direita, Marine Le Pen, pediu a devolução dos migrantes ao país de origem e criticou a recepção do “Ocean Viking”.
“É necessário que esses navios que põem em risco a segurança dos migrantes resgatados no mar levem-nos de volta para seu porto de partida”, declarou.
A esquerda e os ambientalistas comemoraram, por sua vez, uma “decisão digna dos valores” da França.
A SOS Méditerranée anunciou que voltará ao mar para resgatar outros refugiados.
“Houve mais de 20 mil mortes desde 2014 no Mediterrâneo, e não aceitamos que se torne um cemitério”, disse o diretor de operações da ONG, Xavier Lauth.
Em junho passado, uma dúzia de países da UE, incluindo a França, concordou em aceitar a entrada de imigrantes pela Itália e por outros países. Até agora, em 2022, apenas 164 foram transferidos da Itália para outros territórios, o que Roma considera insuficiente.
Em retaliação à posição da Itália sobre o “Ocean Viking”, a França suspendeu um plano para receber 3.500 refugiados atualmente na Itália, no âmbito do referido acordo de distribuição de migrantes, e instou a Alemanha e outros países da UE a tomarem medidas semelhantes.
