Brasileiro Ilan Goldfajn é eleito presidente do BID

O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) elegeu como presidente neste domingo (20) o brasileiro Ilan Goldfajn, que planeja se concentrar no combate à pobreza e à mudança climática em um cenário de crise econômica mundial.

“Pela primeira vez na história, o BID será presidido por um brasileiro. Ilan Goldfajn acaba de ser eleito com 80% dos votos”, tuitou o Ministério da Economia. 

“Serei presidente do BID em toda a sua diversidade, serei o presidente dos países de renda alta, média e baixa”, dos regionais e não regionais, do Sul, da América Central, da América do Norte e do Caribe, afirmou Goldfajn neste domingo após sua eleição. 

O poder de voto de cada país varia em função do número de ações.

Os três principais contribuintes do BID são Estados Unidos (30% do capital), Brasil e Argentina (11,4% cada).

Para ser eleito, ele precisava da maioria absoluta dos votos dos 48 países-membros e do apoio de pelo menos 15 dos 28 Estados americanos (26 da América Latina e Caribe, juntamente com Canadá e Estados Unidos).

A Argentina retirou sua candidata, Cecilia Todesca Bocco, e apoiou o brasileiro. 

“Concordamos e nos somamos ao consenso majoritário e a Argentina obtém dois postos-chave, a vice-presidência e a gerência de infraestrutura, além do instituto de gênero”, afirmaram fontes oficiais argentinas à AFP, que informaram ter apoiado o presidente brasileiro.

Além do brasileiro, estavam na disputa apenas o mexicano Gerardo Esquivel (8,21% dos votos), o chileno Nicolás Eyzaguirre (9,93%) e o de Trinidad e Tobago, Gerard Johnson (1,61%), informaram fontes diplomáticas à AFP. 

Em um comunicado, o BID anunciou a eleição de Goldfajn durante reunião extraordinária da Assembleia de Governadores na sede do banco, em Washington, com a participação de delegações presenciais e virtuais. 

“Como presidente, Goldfajn supervisionará as operações e a administração do banco, que trabalha com o setor público na América Latina e no Caribe”, afirmou. 

Ele também presidirá os Conselhos de Diretores-Executivos do BID e do BID Invest (que trabalha com o setor privado na região) e liderará o Comitê de Doadores do BID Lab, o laboratório do Banco para projetos inovadores de desenvolvimento, acrescentou.

O governo de Joe Biden parabenizou o brasileiro por sua nomeação como presidente do BID, que “desempenha um papel vital na promoção do bem-estar econômico, social e ambiental da América Latina e do Caribe”, manifestou-se o Departamento do Tesouro em nota.

O México, por sua vez, manifestou sua decepção com os resultados, e agradeceu aos dois países da América Latina que votaram em seu candidato, sem especificar quais foram.

“Lamentamos que nas eleições do BID continue a política de mais do mesmo.

Foi eleita a proposta do governo do Brasil, apoiada pela dos Estados Unidos”, manifestou-se, em uma breve nota, a secretaria da Fazenda mexicana.

O Chile pediu ao novo presidente para “pôr o BID a serviço de todos os países da região, incorporando as necessidades das economias de renda média”, segundo uma mensagem de seu ministro da Fazenda, Mario Marcel.

– Pobreza e clima –

As prioridades de Goldfajn para os próximos cinco anos como presidente são a luta contra a pobreza, desigualdade, não só de renda, mas também de gênero, investimentos em infraestrutura, física e digital, disse ele esta semana em entrevista à AFP.

“O próximo presidente vai ter que enfrentar um BID de moral baixa, com muitos conflitos, muito mais ideológico, que precisa ser reenergizado”, mas “isso é um desafio e uma oportunidade”, disse à AFP.

“Será preciso trabalhar com pessoas que vêm de um período muito conflituoso”, antecipou.

Goldfajn substitui o americano Mauricio Claver-Carone, destituído por burlar as regras ao favorecer uma funcionária com quem mantinha um relacionamento romântico e cujo mandato esteve cercado por polêmicas.

Goldfajn, de 56 anos, quer transformar O BID na organização multilateral mais importante da região” e considera fundamental que o presidente seja “independente, não partidário”. 

Embora seu nome soasse como favorito desde que se candidatou ao cargo, não se sabia se ele tinha a aprovação do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva desde que foi indicado pelo presidente em fim de mandato Jair Bolsonaro.

Neste domingo, Goldfajn se descreveu como o “candidato do Estado do Brasil”.

“Não há ninguém no Brasil que se oponha a meu nome”, garantiu ele, que até agora dirigia o departamento do Fundo Monetário Internacional (FMI) para a América Latina, cargo que permanece vago e de grande importância para a região. 

– Liderança –

A instituição criada em 1959 também deve otimizar os recursos que já possui antes de aumentar o capital e recuperar a liderança, porque tempos difíceis se aproximam e não se sabe por quanto tempo, com uma inflação crescente impulsionada pela guerra na Ucrânia, o aumento das taxas de juros e uma desaceleração econômica global que ameaça minar a recuperação pós-pandemia. 

Apesar dos ventos contrários, Goldfajn encontrará uma região com “enormes oportunidades nas áreas de transformação digital, desenvolvimento inclusivo, sustentabilidade e muito mais”, disse na sexta-feira Jason Marczak, diretor do Centro Adrienne Arsht para a América Latina, do Atlantic Council, durante evento organizado por este centro de reflexão.