Chefe de Governo da Alemanha defende aproximação em polêmica visita à China

O chanceler da Alemanha, Olaf Scholz, declarou a intenção de “desenvolver mais” as relações econômicas com a China, após se reunir nesta sexta-feira (4), em Pequim, com o presidente da China, Xi Jinping, durante uma visita controversa a Pequim, marcada pela desconfiança crescente entre a potência asiática e as ocidentais.

“Não somos a favor de uma dissociação das relações econômicas com a China”, disse Scholz, que também foi recebido pelo primeiro-ministro chinês, Li Keqiang. “Mas está claro que para nós isto está vinculado a relações econômicas equitativas, com uma reciprocidade no que diz respeito à abertura aos investimentos”, acrescentou.

Scholz é o primeiro dirigente do grupo das economias mais avançadas do planeta, o G7, e da União Europeia a visitar a China desde o início da pandemia.

A visita de apenas um dia, pouco depois da reeleição de Xi Jinping como líder do Partido Comunista, que lhe abre a porta a um terceiro mandato na Presidência do país, é vista com muitas críticas nos Estados Unidos, na França, na UE e na própria Alemanha.

Durante um encontro com o presidente Xi, Scholz declarou que deseja “desenvolver mais” as relações econômicas com Pequim, apesar das advertências de que seu país depende muito da China.

“É bom que possamos ter uma conversa aqui sobre todas as questões, incluindo aquelas em que temos perspectivas diferentes.

É para isso que serve a troca”, disse Scholz.

– “Respeito mútuo” –

“Estamos em um momento de grandes tensões causadas, especialmente, pela guerra da Rússia na Ucrânia”, disse Scholz.

Os países ocidentais, que apoiam a Ucrânia, veem a “neutralidade” de Pequim como um apoio tácito a Moscou.

O chanceler alemão pediu a Xi que exerça sua “influência” sobre a Rússia para acabar com a guerra na Ucrânia.

Alemanha e China também concordaram em rejeitar qualquer uso de arma nuclear no conflito, uma ameaça citada diversas vezes por Moscou.

“A guerra na Ucrânia cria uma situação perigosa para o mundo inteiro (…) e na China todos sabem que uma escalada teria consequências para o mundo inteiro”, declarou Scholz à imprensa.

O chefe da diplomacia americana, Antony Blinken, destacou ao encerrar, nesta sexta, uma reunião do G7 na Alemanha, “uma convergência crescente entre os Estados Unidos e a Europa em uma abordagem sobre a China”.

Xi considerou que “China e Alemanha devem ter um respeito mútuo e resistir conjuntamente às interferências em sua relação”.

“Esperamos que a Alemanha continue uma política positiva em relação à China”, acrescentou, de acordo com o canal estatal CCTV.

“Enquanto a Alemanha não criticar Pequim, as relações serão harmoniosas”, disse à AFP Thorsten Benner, do Instituto Global de Políticas Públicas (GPPI), em Berlim.

– Ressentimento e pressão –

Com a visita, o chefe de Governo social-democrata segue os passos da antecessora democrata-cristã, Angela Merkel, que viajou 12 vezes à China em 16 anos.

Ao lado de Scholz viajam executivos de grandes empresas alemãs, como Volkswagen e BASF.

Porém, a dependência da maior economia europeia desta autocracia, onde as empresas alemãs geram uma parte importante de seus lucros, é cada vez mais questionada.

A ministra das Relações Exteriores, a ecologista Annalena Baerbock, pediu para a Alemanha “não depender mais de um país que não compartilha nossos valores” por causa do risco de ser “politicamente vulnerável a chantagens”.

Poucos dias antes da viagem, o chanceler alemão autorizou uma participação chinesa no terminal portuário de Hamburgo (norte).

“Apesar do ressentimento e da pressão contra as políticas industriais da China, Scholz parece decidido a ignorar as críticas no momento”, afirmou o cientista político Shi Yinhong, da Universidade Renmin de Pequim.

A viagem “confere uma legitimidade internacional” a Xi e “mostra que a China não está isolada”, explica Noah Barkin, pesquisador do Fundo Marshall em Berlim.

– “Não é uma opção” –

Em um comunicado, o diretor da Volkswagen na China, Ralf Brandstatter, defendeu o chanceler: “Na Europa e na Alemanha, muitos pensam que esta visita não é apropriada.

Eu não penso assim”.

“Desvincular não pode ser uma opção séria para os dois países”, afirmou, antes de recordar que “a China é o parceiro comercial mais importante da Alemanha”.

Para tentar acalmar o cenário, Scholz prometeu “não omitir as polêmicas” durante a visita.