As forças de segurança iranianas mataram a tiros três manifestantes durante protestos nesta quinta-feira (27) pela morte de Mahsa Amini, um dia depois de importantes homenagens para marcar os 40 dias desde sua morte sob custódia policial.
As forças de segurança abriram fogo na cidade de Mahabad (oeste) e mataram ao menos três pessoas, informou o grupo de direitos humanos Hengaw.
Segundo a ONG, uma multidão cercou os escritórios do governo depois do enterro de Ismail Mauludi, um manifestante de 35 anos que morreu no dia anterior durante uma marcha em direção ao gabinete do governador.
“Não deveríamos chorar por nossos jovens, deveríamos vingá-los”, gritavam os manifestantes, apontou a ONG com sede na Noruega.
O Irã vive a maior onda de protestos em anos, liderados por jovens mulheres que desafiam as forças de segurança, queimando seus véus.
O movimento foi desencadeado após a morte de Mahsa Amini, uma mulher curdo-iraniana de 22 anos, em 16 de dezembro, três dias depois de ser detida em Teerã pela polícia da moralidade.
Ela teria infringido o rigoroso código de vestimenta da República Islâmica.
Quase seis semanas após a morte de Amini, a mobilização, alimentada pela indignação pública com a repressão que tirou a vida de outras meninas e mulheres, não mostra sinais de se arrefecer.
– “Dividir a união da nação” –
O presidente iraniano, Ebrahim Raisi, afirmou na quinta-feira que os “distúrbios” provocados pela morte de Mahsa Amini abrem caminho para ataques “terroristas”.
Suas declarações foram dadas depois de um ataque contra um mausoléu ocorrido na cidade de Shiraz, no sul, na quarta-feira (26), que deixou pelo menos 15 mortos.
O grupo jihadista Estados Islâmico reivindicou o atentado.
Com seu discurso, o presidente iraniano ultraconservador pareceu relacionar as duas tragédias.
“A intenção do inimigo é interromper o progresso do país, e esses distúrbios abrem caminho para atos terroristas”, disse ele, em declarações transmitidas pela televisão.
Na quarta-feira, acusou os “inimigos do Irã” de tentar “dividir a união da nação (…) pela violência e pelo terror”.
Também prometeu uma resposta dura das forças de segurança em reação ao ataque em Shiraz.
O líder supremo, o aiatolá Ali Jameneri, pediu nesta quinta-feira a união do país para combater a “conspiração” alimentada pelos “inimigos do Irã”.
– Manifestações em várias cidades –
Apesar das fortes medidas de segurança, milhares de pessoas se reuniram ontem na cidade natal de Amini, Saqqez, na província do Curdistão, para prestar-lhe uma última homenagem em seu túmulo, no final do tradicional período de luto do Irã.
Os presentes entoaram cânticos no cemitério de Aichi, nos arredores de Saqqez, antes que muitos se dirigissem para o gabinete do governador no centro da cidade.
De acordo com o grupo Hengaw, as forças de segurança dispararam gás lacrimogêneo e abriram fogo contra pessoas na praça Zindan em Saqqez.
A ONG não especificou se houve mortos, ou feridos.
A agência de notícias iraniana ISNA disse que a Internet foi cortada em Saqqez, por “razões de segurança”, e que quase 10.000 pessoas se reuniram na cidade.
Ao cair da noite, as forças de segurança dispararam contra manifestantes em Marivan, província do Curdistão, de acordo com um vídeo postado pelo Hengaw.
Não muito longe, na cidade de Bukan, fogueiras queimavam nas ruas, e manifestantes gritavam “Morte ao ditador!”, disse a mesma fonte.
Os manifestantes também cercaram uma base da milícia Basij em Sanandaj, uma cidade conflituosa na província do Curdistão, provocando incêndios e fazendo as forças de segurança recuarem, acrescentou Hengaw.
Houve cenas similares na cidade de Ilam, perto da fronteira ocidental do Irã com o Iraque.
No mesmo dia, aconteceu uma concentração no túmulo de Nika Shahkarami, de 16 anos, perto da cidade de Khorramabad, 40 dias depois que ela foi morta pelas forças de segurança, segundo o grupo de direitos humanos HRANA, com sede nos Estados Unidos.
A repressão aos protestos em todo Irã deixou pelo menos 141 mortos, incluindo crianças, conforme balanço atualizado da ONG Iran Human Rights (IHR), com sede na Noruega.
Segundo a Anistia Internacional, 23 crianças morreram na repressão aos protestos, e 29, de acordo com o IHR.
Também houve uma campanha de detenções em massa de manifestantes e seus simpatizantes, entre eles professores universitários, jornalistas e celebridades.
