França avalia os danos após distúrbios ‘sem precedentes’ em protestos contra o custo de vida

A França avalia, neste domingo (18), os danos causados na véspera por violentos distúrbios e saques em larga escala, desencadeados no contexto de protestos contra o aumento do custo de vida, que resultaram em pelo menos 1.800 detidos. O caos, “sem precedentes” segundo as autoridades, aumentou a pressão sobre o presidente Emmanuel Macron, que, nas últimas semanas, também enfrentou manifestações estudantis em todo o território. A turbulência ocorre a seis meses das eleições presidenciais de 2027, com Macron fora da disputa devido ao limite de mandatos e a ultradireitista Marine Le Pen liderando as pesquisas.

Pelo menos “1.800 pessoas foram presas, e investigações estão em andamento para identificar os autores desses atos e levá-los à justiça”, declarou o ministro do Interior, Laurent Nuñez, neste domingo, na rede social X. A presidente da Assembleia Nacional, Yaël Braun-Pivet, proporá na terça-feira uma comissão parlamentar para investigar os distúrbios e saques, assim como a atuação das forças de segurança, questionada pela oposição e por vários prefeitos.

Em Paris, onde a polícia registrou a detenção “recorde” de 855 pessoas, as ruas estavam repletas de restos carbonizados de barricadas erguidas pelos manifestantes com bicicletas, lixeiras e outros materiais. Em várias áreas, era possível ver vitrines destruídas e carcaças de carros incendiados. A vice-prefeita de Paris, Lamia El Aaraje, lamentou, neste domingo, “um nível de violência que, acredito, nunca tínhamos visto” na cidade.

O presidente Macron fará um discurso às 18h00 GMT (15h00 no horário de Brasília), informou a Presidência francesa, após se reunir com o primeiro-ministro e outros membros do Executivo. Na capital e em várias cidades, como Marselha, Bordeaux, Nice e Estrasburgo, dezenas de estabelecimentos comerciais foram saqueados por jovens mascarados durante as manifestações, que foram convocadas em nível nacional contra a alta inflação e o custo de vida. Pelo menos 1.500 estabelecimentos comerciais foram danificados em todo o território, segundo a Federação de Comércio e Distribuição.- “Horda selvagem” -No centro-oeste do país, a cidade de Limoges perdeu sua prefeitura, que datava do século XIX, devido a um incêndio que, segundo declarou o prefeito à emissora LCI, foi provocado deliberadamente por “uma horda selvagem”. Tanto o governo de centro-direita de Macron quanto a candidata presidencial de extrema direita, Marine Le Pen, culparam grupos de “extrema esquerda” pela violência. Jean-Luc Mélenchon, o líder do partido de esquerda radical A França Insubmissa (LFI), que havia apoiado abertamente as mobilizações, respondeu: “Aqueles que compartilham a nossa luta não têm nada a ver com a pilhagem, com o saque”.

A vice-prefeita socialista de Paris, Lamia El Aaraje, afirmou que o partido Reagrupamento Nacional, de Le Pen, agiu “como um bombeiro piromaníaco” ao acirrar as tensões para impulsionar sua ambição de se tornar presidente em 2027. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, associou a imigração aos distúrbios e instou a França a endurecer suas normas migratórias. “A França está em chamas!

A imigração de pessoas procedentes de um mundo totalmente diferente, pessoas com ódio no coração, destruiu esse país que um dia foi grande”, afirmou Trump em sua plataforma Truth Social.- 500 detidos em Paris -Em Paris, onde no sábado era possível ver turistas assustados correndo com malas por ruas tomadas por gás lacrimogêneo e manifestantes, a Promotoria local informou que mais de 500 pessoas permaneciam detidas neste domingo, incluindo 171 menores de idade. O primeiro-ministro, Sébastien Lecornu, que visitou os cordões policiais na noite de sábado, afirmou que 150 policiais e gendarmes ficaram feridos em todo o país. A violência ocorreu à margem de uma jornada de mobilização nacional contra o alto custo de vida, que reuniu entre 550.000 e 800.000 pessoas, segundo as autoridades e a principal central sindical francesa, a CGT, respectivamente. A polícia usou gás lacrimogêneo e jatos d’água contra os manifestantes, que lançaram projéteis e dispararam fogos de artifício.

Um jovem de 17 anos perdeu uma das mãos em Saint-Étienne, no sul do país, devido à explosão de uma granada lançada pelas forças de segurança. Mujtaba Rahman, analista do centro de estudos Eurasia Group, afirmou no X que a concentração de sábado “não foi um protesto político no sentido estrito da palavra” e que “a maioria das manifestações genuínas contra os altos preços dos combustíveis e as deficiências do sistema educacional foi pacífica”. Na sua avaliação, “a violência partiu de um setor marginal da extrema esquerda”, enquanto os saques “foram obra de grupos oportunistas vindos de subúrbios empobrecidos”. “Tudo isso são boas notícias para Marine Le Pen”, sentenciou.

Durante e após as marchas, grupos de jovens perambulavam pelas ruas de Paris, enfrentando esporadicamente a polícia, enquanto provocavam incêndios e atacavam lojas fechadas para entrar e esvaziar suas prateleiras. O movimento dos “coletes amarelos”, que organizou protestos há oito anos contra o aumento previsto de um imposto sobre combustíveis, convocou as manifestações de sábado sob o lema “Amarelos e Jovens”. A principal queixa era o custo de vida, impulsionado em parte pela guerra no Oriente Médio, que tem contribuído para a alta da inflação.burs-rmb/mmy/jvb/aa

Sun, 18 Oct 2026 14:38:20 GMT