Milhares protestam na Espanha pelo direito à moradia

Dezenas de milhares de pessoas se manifestaram pelo direito à moradia em Madri e outras cidades espanholas, neste sábado (3), um dia depois de o Congresso rejeitar um pacote de medidas apresentado pelo governo de Pedro Sánchez, pressionado para antecipar as eleições.”Todos temos direito à moradia e não é justo o que está acontecendo”, disse à AFP Adhara Freile, uma jardineira de 41 anos, que participou do protesto na capital espanhola.

Cerca de 70.000 pessoas participaram do protesto, segundo a delegação do governo em Madri, um número que os organizadores do Sindicato das Inquilinas elevou para 500.000. Na capital, onde ativistas mantêm há uma semana um acampamento na Praça do Sol, no centro, várias marchas convergiram para a Praça de Cibeles, também na região histórica da cidade, com o lema “Rumo à greve geral”.”O que se respira nas ruas é uma nova energia, uma energia que há muito tempo não víamos, uma energia que vem de demonstrar que oito dias de poder popular são capazes de fazer muito mais do que oito anos de governo progressista”, disse Valeria Racu, porta-voz do Sindicato de Inquilinas, em referência ao Executivo do primeiro-ministro socialista Pedro Sánchez. “Os políticos estão a serviço do dinheiro, dos fundos abutres e afastados do povo”, denunciou Freile, que mora com o companheiro em um apartamento em um bairro de Madri e teme ter que deixá-lo no ano que vem, quando vence seu contrato, se o aluguel aumentar, como já aconteceu com vários vizinhos.

Centenas de pessoas também foram às ruas em cidades como Palma de Mallorca, Santander, Segovia e Toledo, enquanto em Barcelona a marcha foi suspensa por causa de um temporal. Em Valencia, a passeata terminou em confrontos entre a polícia e alguns manifestantes. Nove agentes tiveram ferimentos leves e cinco pessoas foram detidas, segundo a imprensa local.- “Condições muito precárias” -O livreiro Marcos Sainz, de 26 anos, antes alugava com alguns amigos um apartamento de três quartos por 900 euros (R$ 5,2 mil) por mês.

Recentemente, mudou-se para outro de dois quartos, ao custo de quase 1.000 euros (R$ 5,8 mil).”E me sinto privilegiado porque posso arcar”, disse Sainz à AFP, enquanto a multidão em Cibeles cantava lemas como “Fora dos nossos bairros, abutres” e “Greve geral”. Sainz garantiu que continuará protestando “até que alguém ouse regular” o mercado.”Todos vamos ter que ir embora de Madri e lamento porque eu sou de Madri”, disse.

As manifestações, convocadas antes da votação parlamentar de sexta-feira, ocorrem no contexto da crise desatada há cerca de dez dias pelo despejo de Maricarmen Abascal, uma madrilenha de 87 anos que se tornou símbolo dos problemas com o acesso da moradia que afetam a Espanha há anos. Ela foi despejada do apartamento onde morava havia sete décadas depois que a imobiliária que o comprou quis aumentar seu aluguel em 275%.”Vivemos em condições muito precárias, apertadíssimas por um sistema que não nos dá condições dignas para viver.

E estamos reivindicando um direito básico, que é ter uma moradia digna, uma estabilidade”, explicou Javier, um instalador de placas fotovoltaicas de 31 anos, que não quis informar seu sobrenome.”Agora mesmo estou vivendo em um apartamento de 90 metros quadrados com outros quatro (…) Venho pagando, como a maioria de nós, metade do salário por um quarto minúsculo”, acrescentou.- Sánchez avalia -A derrota do governo na sexta-feira no Parlamento, onde foram rejeitados dois decretos com medidas sobre a habitação, voltou a situar no centro do debate a possibilidade de uma antecipação das eleições gerais, inicialmente previstas para 2027.

Segundo a imprensa espanhola, o presidente do governo se deu alguns dias para avaliar a situação e decidir se vai convocá-las. O líder da oposição de direita, Alberto Núñez Feijóo, exigiu, neste sábado, que Sánchez pare de “ameaçar” com eleições e as convoque de uma vez, “porque o país não aguenta mais”. Assim como acontece em muitos países europeus, a falta de moradias acessíveis é um dos principais problemas sociais na Espanha, onde plataformas turísticas como Airbnb e fundos de investimento são responsabilizados pelo aumento vertiginoso dos preços, ao comprar propriedades imobiliárias e reduzir a oferta para os moradores.

Sat, 03 Oct 2026 15:55:59 GMT