Premiê britânica sofre novo revés com saída da ministra do Interior

Na corda bamba, após seis semanas no poder, a primeira-ministra britânica, Liz Truss, sofreu um novo revés, nesta quarta-feira (19), com a renúncia de sua ministra do Interior, Suella Braverman.

Considerada da ala dura do Partido Conservador, Braverman foi ministra de Interior durante apenas 43 dias. Sua saída do Executivo de Truss aprofunda a crise do governo, que teve início no mês passado com o anúncio de um desastroso pacote econômico.

A ministra do Interior alegou, como motivo para sua demissão, ter usado sua conta de e-mail pessoal para enviar um documento oficial para um colega, um “erro” e uma “infração técnica”, pelos quais ela disse aceitar sua “responsabilidade”. 

“Renuncio”, escreveu.

Na carta, Braverman disse ainda estar “seriamente” preocupada com as políticas do governo.

“Fingir que não cometemos erros, agir como se ninguém pudesse ver que nós cometemos esses erros e esperar que as coisas fiquem bem por arte da magia não é uma política séria”, acrescentou.

Braverman será substituída pelo ex-ministro dos Transporte Grant Shapps, nomeado horas depois.

Truss enfrenta críticas generalizadas por não entregar o cargo, após obrigar seu então ministro das Finanças, Kwasi Kwarteng, a assumir a culpa por uma proposta orçamentária que criou um tsunami econômico no país.

– ‘Uma lutadora’ –

Rejeitada pela opinião pública e questionada dentro de seu próprio partido, a dirigente conservadora declarou, nesta quarta, em comparecimento no Parlamento britânico que pretende se manter no cargo.

Até agora, seu silêncio havia sido rompido apenas por uma entrevista à rede BBC.

O líder dos trabalhistas, Keir Starmer, perguntou ao Parlamento: para que serve uma primeira-ministra, cujas promessas não duram uma semana?”. 

Starmer puxou o coro “fora, fora!”, acompanhado por seus correligionários. “Por que continua aqui?”, concluiu o líder da oposição. 

Truss respondeu: “Sou uma  batalhadora, e não alguém que desiste”.

Depois, insistiu: “Estou disposta a tomar decisões difíceis”. 

A crise começou no final de setembro, quando seu então ministro das Finanças, Kwasi Kwarteng, apresentou um pacote de medidas econômicas com cortes significativos de impostos e um colossal auxílio para as contas de energia – duas questões que suscitaram temores de um descontrole dos gastos públicos.

A libra caiu a níveis históricos, e os juros de empréstimos a famílias e empresas ficaram mais caros.

O Banco da Inglaterra precisou intervir para impedir que a situação não degenere em crise financeira. 

Nomeado às pressas na sexta-feira (14), Jeremy Hunt anunciou na segunda (17) uma renúncia de quase todos os cortes de impostos apresentados por seu antecessor, dando a impressão de que agora o poder está mais em suas mãos do que nas da chefe de Governo.

– Inflação dispara –

Enquanto a inflação disparou em setembro, a 10,1% interanual, seu nível mais alto em 40 anos, a primeira-ministra enfrenta rumores de que pretende ajustar as aposentadorias para acompanhar as altas dos preços. 

“Este governo prioriza os mais vulneráveis, ao mesmo tempo que aporta estabilidade econômica e conduz a um crescimento de longo prazo desejado por todos”, garantiu Hunt nesta quarta, ao responder sobre a taxa de inflação.

Hunt advertiu, no entanto, que será necessário conter os gastos públicos. 

Apesar do caos na política, os mercados estavam mais tranquilos, e o Fundo Monetário Internacional (FMI) destacou o retorno à “disciplina orçamentária”, em um momento em que a recessão ronda o país.

Muitos temem, porém, um retorno à austeridade, como ocorreu na crise financeira de 2008, com cortes drásticos no orçamento público e um aumento do desemprego.

Truss é capaz de contornar a situação a tempo? 

Segundo um levantamento do YouGov, apenas um de cada dez britânicos e um a cada cinco eleitores do Partido Conservador tem opinião favorável a Truss.

Entre os membros do partido, 55% estimam que ela deveria renunciar, enquanto 38% preferem que continue no cargo.

A dois anos das próximas eleições parlamentares, a oposição trabalhista se sobressai frente aos conservadores nas pesquisas.

Cinco deputados de seu partido já pediram publicamente que Truss deixe o cargo. Com a falta de um sucessor claro, os conservadores têm reservas quanto a se lançarem em um novo e desgastante processo para indicar um líder.

Buscam um consenso sobre uma pessoa, mas parecem longe de encontrá-la.