A Rússia lançou nesta segunda-feira (10) uma onda de bombardeios coordenados e mortais contra várias cidades ucranianas, incluindo a capital do país, Kiev, em represália a uma explosão que destruiu parcialmente a estratégica ponte da Crimeia.
Trata-se da maior campanha de ataques na Ucrânia em meses e deixou pelo menos 11 mortos e 89 feridos. O Exército ucraniano informou que as forças russas dispararam 75 mísseis contra cidades de todo país, em uma série de ataques que incluíram o uso de drones iranianos lançados de Belarus.
O último bombardeio contra a capital ucraniana remonta ao final de junho.
Estas agressões “constituem outra escalada inaceitável da guerra”, denunciou o secretário-geral da ONU, António Guterres, segundo seu porta-voz, Stephane Dujarric.
A campanha coincide com uma reunião do Conselho de Segurança do presidente russo, Vladimir Putin, convocada após a explosão na ponte de Kerch.
“Ataques maciços com armas de alta precisão de longo alcance foram realizados contra a infraestrutura de energia, militar e de comunicações da Ucrânia”, declarou Putin no início do Conselho de Segurança, segundo imagens transmitidas pela televisão.
O chefe do Kremlin prometeu respostas “severas” em caso de novos ataques.
Já o número dois do Conselho de Segurança, o ex-presidente Dmitri Medvedev, assegurou que os bombardeiros eram “o primeiro episódio” e exigiu o “desmantelamento total” do poder político ucraniano.
Ao mesmo tempo, o presidente de Belarus, Alexander Lukashenko, aliado próximo de Putin, acusou a Ucrânia de preparar um ataque contra seu país e, por isso, anunciou o envio de tropas conjuntas com a Rússia.
– Reações –
Em um discurso à nação, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, disse que a manhã foi “difícil”.
Segundo ele, as forças russas tinham dois objetivos com seus bombardeios.
“Querem o pânico e o caos e querem destruir nosso sistema de energia”, afirmou o presidente, anunciando que as bombas russas atingiram cidades como Dnipro e Zaporizhzhia, no centro do país, e Lviv, no oeste.
Esta informação foi confirmada por Putin.
“O segundo alvo são as pessoas”, denunciou, acusando o Exército russo de lançar os ataques com o objetivo de “causar o máximo de dano possível”.
Segundo o premiê ucraniano, Denis Chmygal, 11 estruturas importantes foram danificadas em oito regiões e na capital.
O Ministério russo da Defesa confirmou ter mirado nas infraestruturas energética, militar e de comunicações da Ucrânia e disse que os ataques “atingiram seus alvos”.
O ministro ucraniano das Relações Exteriores, Dmytro Kuleba, considerou, por sua vez, que Putin está “desesperado, em função das derrotas no campo de batalha”.
Por isso – acrescentou o chanceler -, usa “o terrorismo dos mísseis para tentar mudar o ritmo da guerra a seu favor”.
Zelensky disse ter conversado com os líderes de Alemanha e França e exortou-os a “aumentar a pressão” sobre a Rússia.
“Conversamos sobre o fortalecimento de nossa defesa aérea, da necessidade de uma forte reação europeia e internacional, bem como o aumento da pressão sobre a Federação Russa”, escreveu Zelensky no Twitter.
Os líderes do G7 vão discutir na terça a situação na Ucrânia, informou Berlim, acrescentando que a entrega de um primeiro sistema de defesa antiaérea à Ucrânia, prometido há meses, é iminente.
A União Europeia considerou os ataques russos contra civis são “crimes de guerra”, cujos responsáveis “devem prestar contas”, de acordo com Peter Stano, porta-voz do chefe da diplomacia europeia, Josep Borrel.
O Reino Unido chamou os ataques de “inaceitáveis”, e a França, que considerou um “crime de guerra”, prometeu aumentar a ajuda militar a Kiev.
O secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), Jens Stoltenberg, também condenou os “horríveis e indiscriminados” ataques.
– Sem luz e água –
Em Kiev, a polícia disse que pelo menos cinco pessoas foram mortas e uma dúzia de outras ficaram feridas.
As autoridades ucranianas apontaram que o bairro central de Shevkenko da capital foi atingido e uma universidade, museus e o prédio da filarmônica foram danificados.
Um jornalista da AFP que estava na cidade relatou que um dos projéteis caiu perto de um parquinho infantil e que fumaça saía de uma grande cratera.
Vídeos postados nas redes sociais mostravam colunas de fumaça preta sobre várias áreas da capital.
Em grande parte poupada dos combates até o momento, Lviv também foi bombardeada.
Parte da cidade ficou sem eletricidade e água quente, segundo o prefeito Andriy Sadovyi.
A Moldávia disse nesta segunda-feira que mísseis de cruzeiro russos lançados contra a Ucrânia entraram em seu espaço aéreo e convocou o representante de Moscou para explicações.
No domingo, Putin acusou os serviços secretos ucranianos de terem causado a poderosa explosão que no sábado destruiu parcialmente a ponte que liga a Rússia continental à península da Crimeia anexada em 2014, chamando o incidente de “ato terrorista”.
O tráfego de trens e carros foi interrompido por várias horas após o incidente, que deixou três mortos e foi atribuído a um caminhão-bomba.
A explosão na ponte, inaugurada por Putin em 2018 e símbolo da anexação da Crimeia, foi vista como mais um revés para a Rússia, que perdeu terreno na Ucrânia nas últimas semanas.
O Exército ucraniano e os serviços especiais de Kiev (SBU) não confirmaram nem negaram seu envolvimento na explosão, e Zelensky apenas ironizou em um vídeo que o tempo estava “nublado” na Crimeia no sábado, uma provável referência à fumaça do incêndio.
