O governo francês lançou, nesta quarta-feira (12),uma primeira ordem de volta ao trabalho em um depósito de combustível, devido à manutenção da greve em seis refinarias que causa desabastecimento em postos de gasolina e indignação de motoristas há dias.
“A gasolina é muito importante para nós! Estamos tentando sobreviver há mais de uma semana”, diz Santiago, um dos muitos entregadores em Paris que precisam de seu veículo para trabalhar e estão desesperadamente à procura de combustível.
Quase um terço dos postos de gasolina estava sem combustível na França na noite de terça-feira e, naqueles que ainda tinham gasolina ou diesel, os motoristas faziam filas pacientemente por várias horas para reabastecer.
Seis das sete refinarias na França – quatro de propriedade da TotalEnergies e duas de propriedade da Esso-ExxonMobil – estão em greve.
Apesar dos pedidos e das ameaças de intervenção do governo, os trabalhadores decidiram, nesta quarta-feira, mantar a greve.
Pouco depois, o governo cumpriu sua advertência e lançou uma primeira ordem requisitando trabalhadores em um depósito da Esso-ExxonMobil, “indispensável para [sua] operação” e que “começará hoje”, informou à AFP o ministério da Transição Ecológica.
A medida afeta o depósito localizado na refinaria da Esso-ExxonMobil em Gravenchon-Port-Jérôme (norte).
Os trabalhadores afetados pela decisão são obrigados a trabalhar, sob pena de sanções criminais.
O governo alega que a direção já chegou a um acordo salarial com a maioria sindical do grupo, mas os sindicatos CGT e FO, organizadores da greve, consideram insuficiente o reajuste salarial acordado de 6,5% em 2023, acompanhado de diversos bônus.
“Agradecemos a [primeira-ministra Élisabeth] Borne por sua rejeição à mediação entre o sindicato e a gestão.
A requisição de nosso diretor-geral para um retorno à mesa de negociações teria sido mais fácil”, disse Germinal Lancelin, da CGT da ExxonMobil.
Ao amanhecer, nesta refinaria de Gravenchon-Port-Jerôme, cerca de cinquenta trabalhadores grevistas votaram para redirecionar a greve para o pátio da fábrica, onde estão queimando paletes e sem presença policial nas proximidades, apurou a AFP.
– “Iremos aos tribunais” –
Embora no caso da TotalEnergies a empresa e os sindicatos ainda não tenham chegado a um acordo, os trabalhadores não estão isentos de eventual requisição.
O governo ameaçou ativar esta medida em um depósito de combustível perto de Dunquerque (norte).
O sindicato da CGT exige neste caso um aumento salarial de 10% em 2022 –7% devido à inflação e 3% devido à distribuição de riqueza–, mas a administração desta empresa está aberta a negociar apenas o salário de 2023.
O grupo convocou uma reunião para esta quarta-feira com representantes sindicais, mas não com a CGT, já que eles pedem primeiro o fim da greve.
Em caso de requisição, “vamos entrar na justiça”, alertou Eric Sellini, deste sindicato.
Forçar os grevistas a trabalhar é uma medida excepcional.
O precedente mais importante remonta a 2010, quando o governo do presidente conservador Nicolas Sarkozy lançou uma requisição de trabalhadores de refinarias em greve por causa da reforma previdenciária.
Embora nos últimos dias o governo do liberal Emmanuel Macron tenha se limitado a apelar ao diálogo, finalmente decidiu ameaçar intervir em um momento em que está sob pressão, especialmente da oposição.
A extrema-direita e a direita acusam a “falta de antecipação” do governo e apelam à ação, enquanto, num contexto de inflação, a esquerda critica as “ameaças aos trabalhadores”.
Outra crítica à TotalEnergies é sua recusa em distribuir parte dos 10,6 bilhões de dólares em lucros do primeiro semestre de 2022 entre seus trabalhadores, em meio a um debate sobre se deve tributar os “superlucros” alcançados durante a crise energética.
Além da inflação, o contexto é, portanto, delicado na França com os apelos para economizar eletricidade e gás para evitar apagões durante o inverno, devido à guerra na Ucrânia e problemas em metade dos reatores nucleares franceses.
Soma-se a isso um clima social tenso devido a algumas reformas polêmicas que Macron quer realizar, incluindo o atraso na idade de aposentadoria de 62 para 65 anos, que em sua primeira tentativa já gerou protestos massivos em 2019 e 2020.
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