Indicado de Trump ao Fed promete preservar independência do banco central

O indicado de Donald Trump para comandar o Federal Reserve (Fed, banco central dos Estados Unidos), Kevin Warsh, ressaltou, nesta terça-feira (21), que não será controlado pelo presidente, ao responder a perguntas sobre seu patrimônio e a independência da instituição durante sua audiência de confirmação. Warsh, ex-governador do Fed, enfatizou seu compromisso de “garantir que a condução da política monetária siga sendo estritamente independente”.

Acrescentou que “absolutamente não” seria um fantoche de Trump, acusação feita por alguns críticos em meio à forte pressão do presidente sobre o Fed para que reduza os juros.”O presidente nunca me pediu para predeterminar, me comprometer, fixar nem decidir sobre qualquer decisão de juros em nenhuma de nossas conversas, nem eu jamais aceitaria fazê-lo”, disse Warsh. Ele também criticou o Fed por não alcançar sua meta de inflação desde a pandemia de covid-19, ao advertir que a inflação se torna mais difícil de conter depois que se instala.

A audiência, por vezes tensa, no Comitê Bancário do Senado é um obstáculo decisivo que Warsh precisa superar para suceder ao presidente do Fed, Jerome Powell, cujo mandato termina em 15 de maio. Desde seu retorno à Casa Branca no ano passado, Trump tem criticado duramente Powell por não reduzir os juros de forma mais agressiva. O presidente defende juros baixos porque isso impulsiona a atividade econômica e reduz os custos da dívida pública, muito elevada nos Estados Unidos.

Mas muitos economistas alertam que isso pode reacender pressões inflacionárias. Trump declarou nesta terça-feira à CNBC que ficaria decepcionado se o novo presidente do Fed não reduzisse rapidamente os juros e voltou a atacar Powell por um caro projeto de reforma da sede do banco, alvo de investigação do Departamento de Justiça. Warsh insistiu que cabe ao próprio Fed se manter fora da influência política.”Não creio que a independência da política monetária seja ameaçada quando as autoridades eleitas expressam suas opiniões sobre os juros”, afirmou.- Demonstrar seu valor -Os 11 democratas do Comitê Bancário pediram na semana passada o adiamento do processo de nomeação de Warsh até que sejam concluídos o caso sobre Powell e o da governadora do Fed, Lisa Cook.

Trump tentou destituir Cook por acusações de fraude hipotecária, e é esperada uma decisão da Suprema Corte. O senador republicano Thom Tillis, que integra o colegiado controlado por seu partido, também prometeu bloquear todos os indicados ao Fed – incluindo Warsh – até que seja encerrada a investigação envolvendo Powell. Nesta terça-feira, ele pediu o fim da apuração. Com apenas 13 republicanos no comitê, um voto contrário de Tillis poderia complicar a situação de Warsh, que precisa do aval do colegiado para seguir para votação no plenário do Senado.”Ele precisa tomar muito cuidado para não irritar Trump” e, ao mesmo tempo, evitar ser visto como “fraco ou suscetível a pressões políticas”, disse à AFP David Wessel, pesquisador da Brookings.

Nesta terça-feira, Warsh afirmou que o banco central deve “se manter em sua faixa” em matéria de políticas. Mas Elizabeth Warren, a principal democrata do comitê, afirmou que as investigações sobre Powell e Cook foram concebidas para pressionar os responsáveis pela política do Fed a cumprir as ordens de Trump. E alertou para o risco de haver “um fantoche” do presidente no comando do banco central.- Pressões inflacionárias -Warsh também expressou algumas críticas à atual estratégia do Fed para comunicar sua política, mas não respondeu diretamente se seguirá dando entrevista coletiva após cada reunião sobre os juros.

O economista James Knightley, do ING, disse à AFP que os analistas observam o quanto Warsh se alinha à posição do presidente de reduzir os juros. Quando foi governador do Fed, entre 2006 e 2011, Warsh era visto como mais favorável à manutenção de juros altos para controlar a inflação. Mas ele parece ter mudado de posição, disse Knightley. Agora, a alta do preço da gasolina provocada pela guerra no Oriente Médio representa um desafio para os cortes de juros.

Warsh terá que reconhecer os choques de preços de curto prazo e, ao mesmo tempo, explicar que eles podem não criar uma ameaça inflacionária persistente, apontou Knightley.

Tue, 21 Apr 2026 20:03:10 GMT