A Irlanda do Norte terá eleições antecipadas em breve após o fracasso, nesta quinta-feira (27), de uma tentativa de última hora para tentar superar meses de impasse político devido às disposições especiais aplicadas a este país britânico após o Brexit.
Os deputados do Parlamento regional tinham prazo até a meia-noite desta quinta para encontrar uma solução, mas não chegaram a um acordo, tornando inevitável a realização de eleições que, segundo a imprensa britânica, podem ser realizadas em meados de dezembro.
O Parlamento regional se reuniu em Belfast, mas o acordo foi rejeitado pelo líder do partido unionista DUP, Jeffrey Donaldson, anunciando que sua formação não votaria para designar um presidente da Câmara já que não houve mudanças desde fevereiro, quando o anterior governo regional foi derrubado.
“É preciso eliminar os obstáculos do protocolo, que está minando nossa economia e inibindo nossa capacidade de comércio dentro de nosso próprio país”, afirmou, em referência ao “protocolo pós-Brexit”.
O Acordo de Paz da Sexta-feira Santa, que em 1998 pôs fim a três décadas de um sangrento conflito entre unionistas protestantes e republicanos católicos – com cerca de 3.500 mortos -, impôs que ambos os lados compartilhem o poder nas instituições autônomas regionais.
O republicano Sinn Fein – ex-braço político do IRA – ganhou as legislativas regionais de maio, um feito sem precedentes nesta nação de 1,9 milhão de habitantes, onde os católicos superam pela primeira vez os protestantes.
Mas não foi possível formar um governo porque o DUP – uma legenda ultraconservadora ligada à coroa britânica – se nega a participar do Parlamento regional em protesto pelos acordos pós-Brexit aplicados na Irlanda do Norte.
– Protocolo pós-Brexit –
Os unionistas pedem a revogação ou uma profunda alteração do acordo negociado entre Londres e Bruxelas no marco do Brexit, que mantém a Irlanda do Norte, de fato, dentro da união aduaneira europeia e seu mercado único.
Seu objetivo – um dos maiores obstáculos na difícil negociação da saída britânica da União Europeia (UE), tornada efetiva em 2021 – era evitar um retorno de uma fronteira física com a vizinha República da Irlanda, país-membro da UE.
Tal fronteira seria inaceitável para os católicos republicanos, que militam por uma reunificação da ilha e temia-se que fosse alvo de atentados e ataques.
No entanto, tentando proteger o mercado único, as novas disposições estabelecem, porém, controles aduaneiros dos produtos que chegam à Irlanda do Norte procedentes do restante do Reino Unido.
Isto, além de provocar problemas de abastecimento para os comércios norte-irlandeses, constitui, segundo os unionistas, uma ameaça para o pertencimento do país à região.
Com uma crescente população católica e a pragmática vantagem comercial de pertencer à UE, os habitantes da Irlanda do Norte são cada vez mais favoráveis à convocação de um referendo sobre o futuro da nação.
– “Solução negociada” com a UE –
“Poderíamos nomear um presidente, um primeiro-ministro, um vice-primeiro-ministro e um novo Executivo que pudesse atuar imediatamente para colocar dinheiro no bolso das pessoas” em um momento de crescente crise pelo custo de vida, declarou ao Parlamento regional a dirigente norte-irlandesa do Sinn Fein, Michelle O’Neill.
“Mas o DUP continua negando o resultado das eleições de maio”, afirmou.
Este bloqueio político preocupa Londres e Dublin e foi objeto de um telefonema, na quarta-feira (26), entre o novo primeiro-ministro britânico, Rishi Sunak, e seu homólogo irlandês, Micheal Martin.
Ambos destacaram “a urgente necessidade de um Executivo que funcione na Irlanda do Norte”, segundo um comunicado divulgado por Downing Street.
Para contentar o DUP, o governo britânico quer renegociar completamente o protocolo com Bruxelas, que aceita fazer apenas “ajustes”.
No Executivo anterior, houve ameaça de sair unilateralmente do acordo, provocando a ira da UE.
Ontem, Sunak assegurou à presidente da Comissão Europeia, Úrsula von der Leyen, que prefere uma “solução negociada”.
