Com a proibição das casas de apostas online no Brasil, grandes patrocinadoras do futebol do país, os clubes enfrentam uma situação sem precedentes, com negócios milionários e projetos esportivos em um momento de incógnita. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que tenta a reeleição em uma disputa contra o senador de direita Flávio Bolsonaro, assinou na sexta-feira uma medida provisória que impede as atividades destas empresas, incluindo o patrocínio.
O líder de esquerda justificou a decisão pelos efeitos nocivos das apostas na saúde pública e pelo alto endividamento das famílias brasileiras. Mas, para os clubes, estas receitas representam um verdadeiro maná financeiro, que ajudou a consolidar o domínio regional do Brasil, vencedor das últimas sete Copas Libertadores. A seguir, o que está em jogo.- Quanto os clubes recebem? -Dos 20 clubes da Série A, 14 têm uma casa de apostas online como patrocinadora master.
O dinheiro representou 34% das receitas comerciais das equipes em 2025, ou seja, quase 200 milhões de dólares (mais de um bilhão de reais), segundo a empresa Galapagos Capital. O Flamengo, atual campeão da Libertadores e do Brasileirão, tem com a Betano o maior contrato de patrocínio da história do futebol sul-americano: 46 milhões de dólares (quase 240 milhões de reais) por ano. O valor equivale ao que o clube pagou neste ano pelo meia Lucas Paquetá, sacudindo o mercado continental.”Como é que eu vou pagar o Paquetá em janeiro?”, questionou em um podcast o presidente do clube, Luiz Eduardo Baptista, após a proibição.”Essa medida compromete as receitas do futuro… as contratações que fizemos, os pagamentos que temos a fazer”, acrescentou.
A Betano também patrocina o Brasileirão e a Copa do Brasil. A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) recebe cerca de 14 milhões de dólares (72 milhões de reais) por ano pela presença da marca no nome das competições, segundo a imprensa especializada.- Qual é a situação atual? -A medida de Lula determina a retirada até 5 de outubro da publicidade das chamadas “bets”, mas não especifica seus efeitos sobre o futebol.
O governo propôs uma reunião de diálogo com os clubes, que deve acontecer após o primeiro turno das eleições de domingo, informou à AFP uma fonte do Ministério do Esporte. O Senado tem 120 dias para decidir se transforma a medida provisória em lei. As principais associações de casas de apostas solicitaram na segunda-feira ao Supremo Tribunal Federal que suspenda a medida por suposta inconstitucionalidade.
Lula, por sua vez, reafirmou sua postura. “Ou o Brasil acaba com as bets, ou as bets acabam com o Brasil”, disse após as queixas dos clubes. Para o presidente, as bets representam “apenas” 7% das receitas dos clubes. – Quais os riscos para os clubes? -Especialistas alertam para a incerteza enfrentada pelos clubes, com uma possível desvalorização de seus ativos comerciais e eventuais ações judiciais contra os times.”Uma empresa endividada, uma empresa sem segurança jurídica, que não consegue honrar seus compromissos, sofre uma desvalorização”, disse à AFP Fabiana Bentes, do centro de estudos sobre economia do esporte Sou do Esporte.
A perda é “muito grande”, afirmou o presidente e dono da SAF do Cruzeiro, Pedro Lourenço. “Vamos pensando, refazendo as contas”, acrescentou. O clube de Belo Horizonte, no entanto, receberá apoio econômico do governo estadual de Minas Gerais, que anunciou a ajuda para os clubes locais que ficaram sem patrocínio. O presidente do Fluminense, Mattheus Montenegro, ressaltou as dificuldades que os times enfrentarão para encontrar novos patrocinadores.”É óbvio que isso desvaloriza o ativo, porque qualquer empresa que tenha interesse em patrocinar um clube de futebol vai ter quase todos os clubes disponíveis no mesmo momento”, disse à CNN Brasil. “Então isso desvaloriza muito o ativo e faz com que a camisa perca valor de mercado”, acrescentou.- Fim do domínio regional? -O Flamengo destacou que as receitas das apostas online impulsionaram o futebol brasileiro, que atualmente domina as competições sul-americanas.
Os patrocínios das bets aos clubes do Brasil começaram a aparecer em 2019, ocupando o espaço que já foi dominado pela Caixa Econômica Federal. Desde então, 12 dos 14 finalistas da Libertadores foram equipes brasileiras. Com mais dinheiro, os clubes do país do futebol consolidaram uma vantagem esportiva sobre os vizinhos sul-americanos. Segundo o site especializado Transfermarkt, nove dos dez clubes mais valiosos do continente são brasileiros.
Wed, 30 Sep 2026 13:50:30 GMT
