Papa denuncia exploração durante visita a Angola

O papa Leão XIV condenou, nesta segunda-feira (20), a exploração e a corrupção por parte dos ricos e poderosos durante uma visita ao nordeste de Angola, insistindo em um tema recorrente em sua passagem pelo continente africano. No terceiro dia de visita ao país, o pontífice chegou a Saurimo, mais de 800 quilômetros ao leste da capital, Luanda. Cercado por vários agentes de segurança, Leão XIV acenou para a multidão no papamóvel ao avançar pelas ruas da cidade, de 220 mil habitantes, onde a Igreja Católica trabalha para enfrentar a pobreza endêmica e atenuar as carências das infraestruturas públicas.

Quase 44% da população, ou seja, 15 milhões de angolanos, se declararam católicos no censo de 2024. Saurimo é a capital da província da Lunda Sul, uma região isolada e historicamente marginalizada, vizinha das zonas de exploração de diamantes do nordeste de Angola, Catoca, de onde se extrai cerca de 75% dos diamantes do país. Angola, uma ex-colônia portuguesa, é um dos grandes produtores de petróleo e diamantes do continente africano.

No entanto, quase um terço de sua população vive abaixo da linha internacional da pobreza, fixada em 2,15 dólares (10,70 reais) por dia, segundo o Banco Mundial. O país do sul da África Austral saiu em 2002 de uma sangrenta guerra civil iniciada após a independência em 1975.”Hoje vemos (…) que muitos desejos das pessoas são frustrados pelos violentos, explorados pelos prepotentes e enganados pela riqueza”, declarou o pontífice em português durante uma grande missa ao ar livre. “Quando a injustiça corrompe os corações, o pão de todos se transforma em posse de poucos”, acrescentou. As autoridades estimaram que cerca de 40.000 pessoas assistiram à missa e outras 20.000 participaram a partir de regiões próximas.

O papa também criticou a tirania e a exploração nas duas primeiras etapas de sua viagem pelo continente, na Argélia e em Camarões, mostrando um tom mais duro em relação a seu estilo anteriormente mais reservado.- Mensagem de ânimo e “perseverança” -No meio da manhã, o líder de 1,4 bilhão de católicos do mundo visitou uma casa de repouso que atende quase 60 idosos abandonados por suas famílias ou vítimas da violência.”A sua presença neste centro é uma bênção de Deus”, declarou ao papa o americano Antonio Joaquin, de 72 anos, que contou ao pontífice os abusos dos quais foi vítima por parte de sua família. Apesar de suas riquezas minerais, a província de Lunda Sul, na fronteira com a República Democrática do Congo, sofre com a pobreza extrema, os deslocamentos da população e as consequências ambientais da exploração de minerais.

De volta a Luanda na tarde desta segunda-feira, Leão XIV transmitiu uma mensagem de ânimo e de “perseverança” aos bispos, padres e religiosos reunidos na paróquia de Nossa Senhora de Fátima, um momento dedicado aos desafios da Igreja angolana, entre eles a escassez de recursos e a influência crescente das Igrejas evangélicas.”Tudo o que vocês fazem nas áreas da educação e da saúde foi e continua sendo decisivo”, disse ele diante de cerca de 50 mil pessoas, muitas delas espalhadas por áreas próximas, segundo as autoridades.

Ao chegar a Angola, Leão XIV criticou, em um discurso na presença do presidente João Lourenço, os “sofrimentos” e as “catástrofes sociais e ambientais” provocados pela “lógica de exploração” dos recursos naturais do país. No domingo, durante uma missa celebrada diante de 100.000 fiéis, ele fez um apelo para superar “as antigas divisões” e pediu a cura para “a chaga da corrupção” com “uma nova cultura de justiça e partilha”.

Depois de João Paulo II, em 1992, e de Bento XVI, em 2009, Leão XIV é o terceiro pontífice a visitar o país. A viagem do papa pela África, que começou na segunda-feira da semana passada na Argélia e prosseguiu em Camarões, terminará na Guiné Equatorial de 21 a 23 de abril.

Mon, 20 Apr 2026 19:21:26 GMT