Israel intensifica bombardeios em Gaza em contexto de crescente tensão no Oriente Médio

Israel lançou, nesta quinta-feira (4), bombardeios particularmente intensos na Faixa de Gaza dois dias depois da morte, em um ataque no Líbano, do número dois do movimento islamista Hamas, que governa o estreito território palestino, em um contexto de crescente tensão na região. Os bombardeios não dão trégua em Gaza após quase três meses de conflito. Os ataques aéreos atingiram Khan Yunis, no extremo sul do território, uma cidade que tem sido alvo do Exército israelense há vários dias, segundo um correspondente da AFP.

O Ministério da Saúde do território, governado pelo Hamas desde 2007, relatou 125 mortos em 24 horas. O grupo islamista afirma que morreram 22.438 pessoas, em sua maioria mulheres e crianças, desde o início da guerra, em 7 de outubro. O conflito começou após o ataque surpresa de combatentes do Hamas no sul de Israel, no qual mataram cerca de 1.140 pessoas, a maioria civis, segundo um balanço da AFP baseado em números oficiais israelenses.

Os combatentes também capturaram cerca de 250 pessoas, das quais 129 seguem retidas em Gaza, segundo as autoridades israelenses. Nesta quinta-feira, o Exército israelense anunciou que três israelenses que haviam sido declarados desaparecidos desde 7 de outubro estão em cativeiro na Faixa de Gaza, aumentando o número de reféns sob controle do movimento islamista para 132. Em resposta, Israel prometeu “aniquilar” o Hamas e lançou uma ofensiva aérea e terrestre em Gaza.

A guerra multiplicou as tensões na região, onde grupos apoiados pelo Irã no Líbano, Iraque, Síria e Iêmen mostraram sua solidariedade ao Hamas, considerado uma organização “terrorista” por Israel, Estados Unidos e União Europeia. O secretário de Estado americano, Antony Blinken, viajou nesta quinta-feira pela quarta vez desde o início da guerra em Gaza ao Oriente Médio, diante do temor de que o conflito se estenda por toda a região.

Segundo o Departamento de Estado, Blinken visitará cinco países árabes – Egito, Jordânia, Catar, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos -, o território palestino da Cisjordânia, Turquia e Grécia, além de uma escala em Israel anunciada anteriormente. O porta-voz do Departamento de Estado, Matthew Miller, indicou que Blinken conversará com funcionários palestinos na Cisjordânia ocupada e com autoridades israelenses, e que discutirá “medidas imediatas para aumentar substancialmente a ajuda humanitária a Gaza”.- Reivindicação do Estado Islâmico -Os temores recrudesceram após duas explosões mortais no Irã e o assassinato de Saleh Al Aruri, o número dois do Hamas, na terça-feira no Líbano, onde mil pessoas foram a seu funeral. Tanto o grupo islamista palestino como seu aliado libanês, o Hezbollah, atribuíram o ataque de terça em Beirute a Israel, que não o reivindicou.

Contudo, em Washington, um alto funcionário americano afirmou à AFP que o assassinato de Aruri na periferia sul de Beirute, bastião do Hezbollah xiita, havia sido obra de Israel. A fronteira israelense-libanesa é palco de trocas de disparos quase diárias desde o início da guerra em Gaza, mas os ataques nunca haviam atingido a capital libanesa. Uma fonte do Hezbollah anunciou nesta quinta que quatro de seus combatentes morreram na localidade fronteiriça de Nagoura durante a noite.

Já são 129 os milicianos mortos em confrontos com Israel nos últimos três meses. O ministro da Defesa de Israel, Yoav Gallant, declarou nesta quinta-feira nas redes sociais, que seu país preferia “uma solução política” aos confrontos fronteiriços, mas afirmou que “a janela do tempo para isso é curta”. No Irã, cujos líderes clericais apoiam o Hamas, pelo menos 84 pessoas morreram e 284 ficaram feridas, segundo as autoridades, em um atentado realizado na quarta-feira em Kerman.

O grupo extremista Estado Islâmico (EI) reivindicou o ataque, afirmando que dois de seus membros “ativaram seus cinturões de explosivos”. As bombas explodiram em um intervalo de poucos minutos enquanto uma multidão celebrava o quarto aniversário da morte do general Qassem Soleimani, assassinado por um drone americano em 2020 no Iraque. Além disso, nesta quinta-feira, morreram no Iraque dois integrantes da organização pró-Irã Hashd Al Shaabi, entre eles um militar de alta patente, em um ataque com drones cometido pelos Estados Unidos.

Segundo Washington, esse “bombardeio foi um ato de legítima defesa” contra a facção, que reúne várias milícias iraquianas pró-Teerã. “Nenhum civil ficou ferido e nenhuma infraestrutura ou instalação ficou danificada”, indicou um responsável militar americano.- Morreram ‘enquanto dormiam’ -Antes do anúncio da visita de Blinken, Matthew Miller garantiu que “ninguém está interessado, nem Israel, nem a região, nem o mundo, na extensão desse conflito para além de Gaza”.

Em Khan Yunis, no sul de Gaza, o Exército israelense afirmou ter matado combatentes do Hamas, atacado “infraestruturas terroristas” e bombardeado “terroristas que queriam colocar um artefato explosivo perto de soldados”. No necrotério do hospital Nasser, os corpos das vítimas foram colocados juntos aos outros no chão, segundo a AFPTV. Baha Abu Hatab, em prantos, observava agachado o corpo de seus sobrinhos.”Os bombardeios israelenses os atingiram enquanto dormiam.

Por quê? Por que são crianças? Por que ameaçam Israel e os Estados Unidos?”, perguntava-se aflito. O conflito desatou uma grave crise humanitária na assediada Gaza, onde 80% dos seus 2,4 milhões de habitantes vivem deslocados e amontoados em acampamentos.

Fri, 05 Jan 2024 00:19:30 GMT